Corvid 19: estamos diante de um colapso econômico?

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Os brasileiros parecem acreditar que somos realmente um povo abençoado por Deus. Enquanto as maiores economias do mundo fecham suas fronteiras, enclausuram seus cidadãos e adotam medidas de guerra contra o Coronavírus, a população aproveita as paralizações estabelecidas pelo governo nas escolas e empresas para ir à praia, ao shopping e ao cinema. O número de casos ativos no mundo no momento em que este texto está sendo escrito já passa de duzentos mil, com mais de oito mil mortos. O Brasil, neste momento, tem quase trezentos casos confirmados, com apenas uma morte, embora outras cinco estejam sob investigação.

Números divulgados dessa forma não causam muita impressão e isso talvez explique a negligência da população. Nem mesmo o presidente Bolsonaro pareceu dá importância ao problema, logo ele que estava sob suspeita de contaminação e mesmo assim foi à passeata em seu apoio e contra os poderes Legislativo e Judiciário. As pessoas imaginam que o índice de letalidade do vírus, em torno de 3,74%, não é preocupante, mas não levam em conta a capacidade de contaminação exponencial da doença.

No último dia 04 de março havia pouco mais de três mil infectados na Itália com 107 mortos e hoje, duas semanas depois, já foram contabilizados quase vinte e oito mil casos com 2.148 mortes. É algo assustador, quando os números são analisados dessa forma. Em todos os países onde a doença se alastrou, o pico de crescimento exponencial ocorreu entre a segunda e terceira semana dos primeiros registros.

Governantes mais preocupados com a saúde do seu povo já tomaram uma série de medidas que objetivam reduzir a propagação do vírus. A China, onde a doença foi identificada, isolou áreas inteiras e confinou 56 milhões de habitantes. A Europa fechou as suas fronteiras e em alguns países foi estabelecido o confinamento. As pessoas só saem às ruas por razões muito bem explicadas, cabendo à polícia e ao exército controlar tudo isso. Os Estados Unidos e a quase totalidade da América Latina também fecharam as fronteiras e cancelaram voos para os países com maior número de casos. O Brasil ainda estuda fechar a sua fronteira.

O conjunto dessas ações paralisou os mais diferentes negócios. A indústria do turismo, um dos motores da economia europeia, está em níveis próximos de zero, afetando a hotelaria, restaurantes, meios de transporte, entretenimento e todo o resto que tem sinergia com o negócio. Estima-se que o comércio mundial vem perdendo algo em torno de 53 bilhões de Euros por trimestre. As bolsas de valores registraram queda que se assemelham à crise do Subprime em 2008. Com tudo isso parado, inicia-se uma crise paralela nos países exportadores de petróleo, com queda substancial no preço do óleo, relembrando a crise do Petróleo da década de 1970.

Para conter o estrago, os governos estão adotando as já testadas técnicas de Keynes para elevar o gasto público e fazer a economia funcionar. Estima-se que algo em torno de US$ 2,8 trilhões já foram envolvidos em medidas para combater a crise nos principais países. Nos Estados Unidos, além de baixar a taxa de juros para perto de zero, o presidente Donald Trump autorizou a compra de mais de setecentos bilhões de dólares em títulos emitidos pelo governo e de títulos lastreados em hipoteca. Além disso, cogita distribuir dinheiro para a população manter o poder de compra e não afetar ainda mais a economia. Na Europa também foram editadas medidas que visam estimular os negócios e evitar que empresas quebrem. Essas medidas vêm na forma de empréstimos com juros reduzidos e benefícios a empregados.

Na Ásia não tem sido diferente. A China reduziu o compulsório, elevou os empréstimos e ainda está injetando recursos por meio de subsídios aos setores mais afetados. Japão e Coreia do Sul prometem gastar rios de dinheiro para manter empregos e empresas ativas, principalmente as de pequeno porte. Nos demais países do globo terrestre não há registro de países que estejam de braços cruzados esperando o holocausto.

No Brasil, o ministro Paulo Guedes anunciou uma série de medidas que pretende injetar quase 150 bilhões na economia e prometeu novas medidas a cada 48 horas. O plano envolve postergar pagamentos de impostos e empréstimos, antecipar o décimo terceiro salário de aposentados, aumentar os inscritos no Bolsa Família e, ainda, decretar estado de calamidade pública. Dessa forma, o governo poderá elevar o gasto público além dos limites da Lei de Responsabilidade Fiscal e fazer compras de vacinas, medicamentos e equipamentos para combater a crise sem licitação.

No mundo todo o governo e a população estão unidos em busca de soluções. As medidas contingenciais são restritivas, mas o povo já está acostumado com situações assim. A Europa enfrentou duas guerras e seu povo sabe o que é viver em período de escassez. Os EUA já viveram momentos críticos, como a grande depressão de 1929 e o ataque às Torres Gêmeas em 2011, e também sabe como arregimentar o apoio popular para superar dificuldades. O Brasil, por seu lado, não está acostumado a sacrifícios em tempos de calamidade. Apesar do Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, falar em alto e bom som que o país sofrerá pelo menos três meses de estresse e que a situação só voltará ao normal no segundo semestre deste ano se houver imunidade de 50% da população, muitos continuam aproveitando o momento para fazer gracinhas nas redes sociais, sem falar naqueles que acreditam se tratar de uma conspiração chinesa para vender a vacina. No lado econômico, apesar do ministro Paulo Guedes pedir empenho dos políticos para acelerar a aprovação das reformas, o Congresso Nacional informa que a tramitação ficará para depois da crise. A guerra ideológica entre direita e esquerda tem o poder de contaminar o ambiente muito mais que o vírus e retardar ações que possam ajudar a reduzir o estrago.

No meio do fogo amigo entre poderes constituídos, a iniciativa privada e parte das autarquias se vira como pode e procura fazer a sua parte. O setor educacional fechou as atividades acadêmicas presenciais e vai tentar manter os alunos ativos por meio do ensino à distância, evitando concentração de pessoas. Os eventos esportivos foram cancelados ou adiados, reduzindo o contato entre atletas e entre torcedores. Alguns segmentos econômicos já estão concedendo férias coletivas, aproveitando que o mercado está em processo de paralização. As cadeias de televisão mudaram suas grades e estão até mesmo oferecendo gratuitamente as transmissões a cabo para confortar um pouco mais quem vai ficar em casa. O próprio IBGE adiou o censo de 2020 para o próximo ano.

O resultado disso tudo não poderia ser outro: o mundo vai enfrentar uma recessão, em maior ou menor grau dependendo do tempo que durar a reclusão das pessoas. Itens de prevenção já começam a faltar, como álcool gel, luvas e máscaras. O pânico tem ajudado a criar filas enormes em postos de vacinação. Pessoas receosas de desabastecimento compraram o estoque de papel higiênico nos supermercados. Restaurantes tenderão a fechar as portas, como já aconteceu na Europa, e os meios de transporte também registrarão queda acentuada de passageiros. As montadoras anunciaram paralisação das atividades durante a crise.

Como reflexo do efeito cascata, vai faltar dinheiro e viveremos outra crise de inadimplência, como aconteceu nos primeiros meses após o Plano Real e na Crise do Subprime. As projeções de crescimento econômico cairão por terra. Os especialistas já estão refazendo suas projeções e apostando que a economia brasileira terá crescimento muito baixo este ano em relação a 2019. É possível que o índice de desemprego aumente e que experimentemos alta dos preços em alguns itens por conta de desabastecimentos e queda acentuada de preços em outros pela simples falta de consumo ou indexação ao dólar.

Os ares sombrios não param por aí. A expectativa de que o número de infectados no Brasil aumente assustadoramente nos próximos quinze dias já deixa as autoridades sanitárias com nervos à flor da pele. A tendência é que os casos por aqui se multipliquem mais rápido que na Itália e, se isso acontecer, vai faltar leito hospitalar para tantos doentes. Esse é o grande problema para o qual não há soluções à vista. O ministro Mandetta pede que as universidades mantenham os cursos de medicina e enfermagem funcionando, porque esses estudantes podem ser úteis em um possível cenário de guerra. Há países acelerando a formatura de médicos, antes mesmo da conclusão do curso, de forma a ter mão de obra suficiente para dá conta do número elevado de doentes necessitando de cuidados.

Os conselhos para reduzir a atividade, evitar contatos com outras pessoas, deixar de ir a locais de aglomeração já estão mais do que divulgados como a mais eficaz forma de reduzir a chance do vírus se multiplicar. O trabalho remoto parece ser a saída neste momento e as redes de computador estão bem equipadas para fazer isso acontecer sem grandes problemas. O que falta mesmo é a população entender o tamanho do problema e começar a adotar um comportamento mais responsável diante da crise. O que está em jogo é o emprego de cada um de nós, a manutenção das empresas e até mesmo a nossa sobrevivência e a de outras pessoas próximas. Teremos que aprender a viver em regime de guerra.

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