À BBC Brasil, Ráissa Azulay diz que chegou a se sentir culpada pelo covid-19 entrar no Maranhão

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Raíssa teve o segundo teste positivo para coronavírus no Maranhão e foi perseguida nas redes sociais

Em entrevista à BBC Brasil a turismóloga e servidora pública Raíssa Azulay, que teve o segundo teste confirmado para coronavírus no Maranhão, narra os momentos difíceis que viveu por conta de uma polêmica em torno do seu nome nas redes sociais. Logo após receber o resultado do exame, ela permaneceu isolada em casa, mas a doença e os sintomas não a afetaram tanto quanto a repercussão do fato por ela estar com a covid-19.

No dia seguinte após o diagnóstico, Raissa, que também é servidora pública, teve fotos reveladas em diversos aplicativos de mensagens, mas ela jura que as mensagens que passou foram apenas para pessoas mais próximas que gostaria que soubessem do seu estado, mas começou a receber inúmeras mensagens em seus perfis nas redes sociais.

Ela também passou a ser ofendida por diversas pessoas, como se fosse culpada pelo vírus ter chegado ao Maranhão. “Começaram a me chamar de irresponsável”, relata. Um mês após, ela é considerada recuperada da covid-19. “Os médicos disseram que não transmito mais o vírus”, ressalta sem saber quando perderá o medo de sair de casa. “Tenho receio de que alguém me encontre e venha me acusar de ter passado o vírus para outra pessoa”, desabafa.

Raissa Azulay

Primeiros sintomas – Raíssa diz que sentiu os primeiros sintomas por volta de 13 de março. “Eram sintomas leves. Tive uma febre baixa e o corpo estava dolorido”, conta. Dois dias depois, procurou um hospital. “Não pensei que fosse covid-19, porque eu não tinha aqueles sintomas mais conhecidos, como febre alta, tosse ou dificuldades para respirar”, detalha.

O médico solicitou que  fizesse o teste para a covid-19. “Fiz no mesmo dia, 15 de março. Aceitei fazer para tirar a dúvida, mas tinha certeza de que não era”, comenta. O resultado saiu seis dias depois, em 21 de março: positivo. “Fiquei assustada”, revela. Ela não tinha viajado recentemente e não havia mantido contato com alguém que tivesse sido diagnosticado com o novo coronavírus.

Ela não tem uma pista de como contraiu a doença. “A princípio, pensei que tivesse pegado de um amigo que tinha voltado da Europa dias antes, mas ele não teve sintomas, nem a namorada dele. Depois, lembrei que eu também havia encontrado outras pessoas que tinham retornado recentemente de viagens. Até hoje não tenho certeza de como contraí o vírus”, explica.

Por não apresentar complicações de saúde graves, ela fez o tratamento em casa. Ficou isolada em seu quarto, pois mora junto com os pais idosos. Evangélica, pediu a conhecidos que orassem pela sua saúde. “Compartilhei o resultado apenas com as pessoas que eu sei que queriam o meu bem”, pontua.

Ela diz que o seu diagnóstico ficou conhecido por inúmeras pessoas após uma conversa com uma amiga. “Eu contei que estava com o coronavírus e ela pediu para eu escrever uma mensagem para amigos dela que não estavam se cuidando. Eu escrevi que eles deveriam tomar cuidado, porque era real e o vírus já estava circulando no Estado. Ela compartilhou um print da conversa, para alertar esses amigos”, diz. No mesmo dia, a imagem passou a ser compartilhada massivamente, junto com fotos de Raissa.

“De repente, muita gente soube que eu estava com o vírus. Meus amigos me alertaram e pediram para eu trancar minhas redes sociais. Passei a receber muitas mensagens de pessoas querendo saber como peguei e que lugares eu havia frequentado”, relata a servidora pública.

Ela ficou abalada com a situação. “Comecei a me desesperar. Passei a ser chamada de irresponsável por desconhecidos. Não consegui trancar meu perfil no Instagram. Tive que pedir para a minha irmã fazer isso”, conta.

Raissa Azulay e os pais
Raissa ao lado dos pais: apoio da família foi fundamental para servidora pública após ser diagnosticada com a covid-19 (álbum de família)

Boatos – Logo que o print da conversa de Raissa passou a circular nas redes, uma página de notícias da região compartilhou o fato. “Um blogueiro fez uma matéria: ‘conheça a patricinha que estava espalhando o vírus em bares de São Luís’. Ele mencionou o meu nome e disse que eu era irresponsável”, comenta. Ela conta que após a publicação passou a receber ainda mais mensagens e críticas.

Diante da repercussão, ela planeja processar o responsável pela página. “Ele usou uma foto antiga minha e deu a entender que eu tinha saído estando com o vírus. Isso fez com que eu fosse mais atacada”, declara.

Após o nome de Raissa passar a circular nas redes, surgiram diversos boatos relacionados a ela. Diziam que ela pegou o vírus de um namorado francês e até que a servidora tinha morrido em decorrência da covid-19. Em meio aos boatos, as ofensas nas redes sociais eram apagadas pelos irmãos dela, que tentavam poupar Raissa. “Uma coisa que foi muito importante para enfrentarmos tudo isso foi a nossa fé”, afirma Raissa.

Sentimento de culpa – Raíssa diz ter um sentimento de culpa pelo que ocorreu. “Eu cheguei a me sentir a responsável pelo vírus aqui no meu Estado, porque tudo que comentavam sobre mim me fez acreditar nisso”, diz.

O sentimento de culpa aumentou quando o pai de Raissa, o ex-professor da Universidade Federal Maranhão Elias Azulay, de 76 anos, apresentou sintomas da covid-19. Ele tem problemas cardíacos, foi internado em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) com quadro de saúde semelhante ao de pacientes com o novo coronavírus, mas o exame dele ainda não ficou pronto.

Raissa considera que a repercussão negativa de ter seu nome divulgado foi pior que os sintomas que teve com o novo coronavírus. “Descobri que existe muita gente ruim. Fiquei com trauma de tudo isso. O vírus não causou tantas dificuldades para mim como os ataques que recebi”.

(Com informações da BBC com fotos de álbum de família)

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Aquiles Emir
Editor chefe da Revista e do site do Maranhão Hoje. Sócio-proprietário da Class Mídia – Marketing e Comunicação