Só um milagre pode nos salvar

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Não se trata da ira divina e nem de exército de demônios 

  • JOÃO CONRADO
  • conrado1959@gmail.com

Já há quem escute o som das trombetas do apocalipse. Não será exatamente como previu a Bíblia, muito embora a guerra, a fome e as pragas já estejam presentes. Há quem diga que o anticristo também está entre nós semeando a discórdia, restando apenas a consumação de uma tenebrosa fase, inevitável e dolorosa.

Não estamos falando da ira divina e nem de um exército de demônios dispostos a dizimar a humanidade. Não se trata de uma catástrofe épica, mas a batalha do Armagedon deverá ser empreendida até o fim do ano, no exato momento em que não houver mais produtos nas prateleiras dos supermercados e escoar a última gota de combustível nos postos. Os sinais de desabastecimento já vêm sendo sentidos na maior economia do planeta, refletindo na elevação dos preços e no descontentamento da população.

Aqui no Brasil, o espírito tupiniquim, que aproveita tudo para obter vantagem política, enxerga essa crise mundial como culpa do governo. Não percebem, os nobres e honrados líderes, que a falta de combustíveis na Europa e Estados Unidos não tem um milímetro de culpa do Bolsonaro e, por conta dessa cegueira oportuna, fecham-se às possibilidades de adotar rotas de correção e evitar o pior. Além de cegos, estão surdos também porque, como já foi dito no início deste texto, o eco das trombetas já está se tornando ensurdecedor.

Talvez a melhor explicação para a apatia brasileira em enfrentar o problema que já está claro para o resto do mundo seja, antes mesmo do aproveitamento político, a falta de verdadeiros estadistas, capazes de superar as diferenças partidárias. Bolsonaro sequer consegue liderar uma equipe coesa e capaz de seguir unida em busca de um objetivo comum.

Perde-se na falta de unidade, na truculência com que enfrenta os problemas e no foco pelo único objetivo que parece interessar: a reeleição. A oposição, entendendo-se como tal o poder judiciário, parte do legislativo, a imprensa, celebridades em geral e quem mais possa tirar proveito em bater no governo para ficar de bem com a opinião pública, nem mesmo consegue ocupar o vácuo deixado pelo governo ao não enfrentar o problema. Resumindo, não interessa a ninguém enxergar e ouvir os sinais da tempestade e adotar as medidas preventivas. Resta-nos esperar o milagre.

É muito possível que, a esta altura, já não haja muita coisa a ser feita. A sorte já está lançada porque, em economias onde não há a polarização ideológica tão profunda como no Brasil, o desabastecimento já é real. Inúmeros vídeos circulam nas redes sociais dando conta de filas em postos e supermercado, falta de alguns produtos e preços em alta. Essas cenas não acontecem em países mais pobres e sim nos mais ricos, também fortemente afetados pela conjuntura econômica que é consequência da pandemia e da guerra.

Esses países certamente vão procurar resolver seus problemas, o que significa que não irão priorizar as exportações dos produtos que precisam para regularizar a demanda interna. O resultado de uma decisão desse calibre é fácil de perceber: vai faltar muita coisa nos países em desenvolvimento, principalmente itens não produzidos no local e o pouco que esses países conseguirem adquirir vai ser vendido a preço de ouro.

O problema reside, portanto, na falta de ações preventivas para garantir o abastecimento, formar estoques e se preparar para os dias de vacas magras. No Brasil, ao que parece, não há muita providência nesse sentido. Todos os esforços estão sendo dirigidos para eleger este o aquele candidato. Atacar o problema vai ser uma tarefa para o eleito e, neste cenário de abstinência, certamente será muito mais dura e complexa. Se não acontecer o milagre, é muito difícil prever como estaremos daqui a seis meses.

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Editor chefe da Revista e do site do Maranhão Hoje. Sócio-proprietário da Class Mídia – Marketing e Comunicação