Cuba tem prejuízo bilionário com saída do programa Mais Médicos

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Reportagem de Ricardo Senra, da BBC Brasil, informa que a saída de Cuba do programa Mais Médicos vai representar um grande baque nas exportações de serviços de saúde da ilha caribenha. É que as exportações de serviços de saúde são bem mais lucrativas que as de produtos produzidos na ilha, como açúcar, tabaco, rum ou níquel, ou sejam respondem por U$ 11 bilhões  dos U$ 14 bilhões que Havana arrecada por ano no comércio internacional, segundo dados da Organização Mundial do Comércio e da imprensa estatal cubana.

Com o fim do acordo firmado em 2013, ainda no governo de Dilma Rousseff (PT), Cuba deve perder U$ 332 milhões, o que corresponde e mais de R$ 1,1 bilhão por ano. O valor supera as exportações de charutos (U$ 259 milhões), segundo o Instituto de Tecnologia de Massachusetts. A estimativa do prejuízo é do economista cubano Mauricio De Miranda Parrondo, professor titular da Pontifícia Universidade Javeriana de Cali, na Colômbia.

“As alternativas (à perda econômica do Mais Médicos) são muito escassas”, diz Parrondo em entrevista à BBC News Brasil. “As opções mais visíveis aparecem no turismo cubano, mas não se espera que o vácuo deixado pela renda vinda do Brasil possa ser coberto com isso.”

Aluguel de médicos – Os norte-americanos foram os primeiros a comentar o afastamento diplomático entre Brasil e Cuba. A Casa Branca parabenizou Bolsonaro “por tomar posição contra o regime cubano por violar os direitos humanos de seu povo, incluindo médicos alugados no exterior em condições desumanas”.

Se o americano descreve a oferta de serviços médicos como “aluguel”, o novo governo brasileiro vai além e fala em “escravidão”, argumentando que o governo cubano ficaria com 75% dos mais de U$ 3 mil pago a cada médico por mês. “Isso é trabalho escravo. Nao poderia compactuar”, disse Bolsonaro.

Fotografia de abril de 2016: então presidente Dilma Rousseff lança nova etapa do programa Mais Médicos e é cercada por profissionais do programa, alguns cubanos
Programa Mais Médicos foi criado pelo governo de Dilma Rousseff – na imagem, tirada em 2016, Dilma lança nova fase do programa e é cercada por profissionais, alguns cubanos (EBC)

O termo técnico assinado entre o Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), órgão ligado à ONU que atua como intermediário no envio de recursos do programa Mais Médicos, não existem números oficiais sobre o percentual do salário que é de fato repassado para os médicos cubanos no Brasil.

Segundo o acordo, os médicos são funcionários do governo da ilha, que por sua vez presta serviços remunerados ao Brasil. Mesmo com os descontos, a fatia de salário recebida pelos profissionais no Brasil é muito superior aos rendimentos dos que trabalham nos arredores de Havana: a renda mensal de um médico em Cuba é estimada entre U$ 25 e U$ 40 dólares, ou o equivalente a R$ 94 e R$ 150.

Para a ONG americana Cuban Archive, o modelo de exportação de serviços médicos de Cuba “só é possível em um governo totalitário”.Como em Cuba o estado é o único empregador, os profissionais de saúde estão proibidos de deixar o país sem permissão. “Quando são enviados para uma missão estrangeira, eles devem deixar suas famílias para trás como reféns para seu retorno”, aponta a instituição.

Já Cristian Morales, representante em Havana da Opas, defende publicamente a proposta, argumentando que ela “permite a Cuba receber recursos internacionais importantes para garantir o funcionamento de seu próprio sistema de saúde universal”.

Entrevistado em 2016 por um conjunto de pesquisadores de universidades do Brasil, da Alemanha e da Espanha, um médico cubano ficou com o meio termo.

“Em Cuba tudo é de graça, a população não tem que pagar por estudos, esportes e nem mesmo por serviços saúde. Para conseguir tudo isso, o dinheiro precisa vir de algum lugar, então estamos comprometidos com o povo dessa maneira, para manter as coisas como estão no nosso país”, afirmou.

“Mas, falando claramente, nós podemos ter esse compromisso de ajudar o nosso povo, mas também não é justo receber 30% (do salário) pelo resto de nossas vidas […] Eu trabalhei no Haiti e ganhava 20% […] As pessoas também tem que entender que precisamos viver, nós também temos nossos sonhos.”

Governo Michel Temer, apesar de fazer oposição ao PT, manteve o programa; nesta imagem de 2016, o então ministro da Saúde Ricardo Barros recebe profissionais do Mais Médicos, incluindo cubanos (EBC)

Casa mobiliada – Se, no Brasil, a medicina é uma carreira de prestígio e seus profissionais podem ganhar salários bem mais altos que a média nacional, qual é o status social dos médicos em Cuba? “Os médicos são profissionais altamente reconhecidos pela sociedade cubana”, responde o economista cubano Mauricio Parrondo.

“Mas esse reconhecimento não está relacionado à sua renda por meio dos salários, que são insuficientes para cobrir necessidades essenciais, como acontece com os outros trabalhadores que recebem do Estado cubano. O alto prestígio tem a ver com a importância percebida pela população.”

Em entrevista à BBC em 2013, ano de lançamento do programa, uma médica cubana ilustrou esta tese. “Não tinha absolutamente nada. Graças à missão, mobiliei toda minha casa.”

(Com dados da BBC)

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Editor chefe da Revista e do site do Maranhão Hoje. Sócio-proprietário da Class Mídia – Marketing e Comunicação