Os noventa anos de Ferreira Gullar

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Para Platão convinha separar a filosofia da poesia. Os artistas, poetas, concorriam para desestabilizar a sua República. No Maranhão, em 10 de setembro de 1930 nasceu em São Luís um artista na expressão integral da palavra e da vida: José Ribamar Ferreira, que reinventou o nome adotando o pseudônimo Ferreira Gullar. Para celebrar 90 anos do seu nascimento o poeta e pensador Rossini Corrêa sugeriu a realização de Webinário pela Academia Maranhense de Cultura Jurídica, Social e Política, a fim de evocar sua importância para as letras maranhenses e brasileiras.

Gullar não apenas reinventou o nome, a vida também, ao se descobrir poeta, artesão das palavras, sintetizando-a: por que ela não basta é preciso reinventá-la pela arte, em que se fez exímio, nas modalidades plásticas, na pintura, e acima de tudo, na poesia e na prosa. Dele tomei conhecimento em meados dos anos sessenta da centúria passada. Era membro do Centro Popular de Cultura-CPC da União Nacional dos Estudantes- UNE. Faziam trabalho de conscientização política pela poesia, a música, o teatro. Visavam tornar os estudantes e o povo mais aptos a reivindicarem um Brasil mais justo para todos. Aí adveio o golpe militar de 64. Fechou a entidade, levou-o a partir para a Argentina, ao Chile, a União Soviética, pagando o ônus de deixar a família, a pátria, e os compromissos impostergáveis com as suas artes. Que continuaram legando-nos “Poema Sujo”, a “Canção do Exílio” pós-moderna.

Deixou São Luís do início dos anos cinquenta, uma cidade acanhada, com população de duzentos mil habitantes. O jovem poeta houvera publicado o primeiro livro, em 1949, “Um Pouco Acima do Chão”. O Estado do Maranhão vivia sobre o mandonismo político de Vitorino Freire. O episódio de recusar-se a ler uma nota política do grupo governista na Rádio Timbira, além de outro acontecimento traumático, vivido na sertaneja cidade de São João dos Patos, governada pela prefeita Noca Santos, a única de oposição na região, certamente o fez refletir. Convidado pela prefeita, juntamente com o estudante de Direito Kleber Moreira, a assistir as eleições, estava em companhia de Joaquim Bezerra Bonfim, naquela noite em Sucupira, próximo de Mirador, assassinado a mando de agente policial do governo, por incomodá-lo no apoio que prestava à prefeita Noca.

O poeta posteriormente escreveu seriado para a “Rede Globo” relatando o episódio que seguramente o comoveu. Após vencer concurso literário migrou para o Rio de Janeiro onde começou a trabalhar em periódicos e revistas, entre eles a revista “O Cruzeiro” e “Jornal do Brasil”, ao tempo em que deflagrava movimentos poéticos inovadores, o concretismo e o neoconcretismo. Antes, participara no Maranhão do movimento pós-modernista ao lado de Bandeira Tribuzi, Lucy Teixeira, Lago Burnett, José Bento Neves e José Sarney.

Rossini Corrêa em sua magistral exposição do Webinário suscitou algumas influências filosóficas presentes na obra de Gullar, foi da fenomenologia de Husserl e Merleau-Ponty ao existencialismo de Heidegger e Sartre. Não há dúvida, sobre seu trabalho incidiu o espírito da época e suas correntes de pensamento.  Em “Traduzir-se” nos versos:  “Uma parte de mim é permanente/ outra parte se sabe de repente”, o espontaneísmo da sua poesia incorpora todas as possíveis contribuições filosóficas, unindo aquela desnecessária separação platônica.

Os depoimentos prestados ao Webinário, dos seus familiares, da filha, das netas, de Joãozinho Ribeiro, de Jhonatan Almada, foram consistentes, incluindo o de Miguel Conde, seu biógrafo para quem já disse: o Joaquim Bezerra Bonfim do episódio de Sucupira é meu tio pelo lado materno. De uma família que traz consigo o sertão no coração.

Por último, anunciei a criação da medalha “Ferreira Gullar” para incentivar as artes e preparar o seu centenário.

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Aquiles Emir
Editor chefe da Revista e do site do Maranhão Hoje. Sócio-proprietário da Class Mídia – Marketing e Comunicação

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