Primeiro dirigível da América Latina faz voo inaugural

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Sobrevoo do dirigível em São Carlos (SP)

Antes do voo inaugural do famoso 14-bis, em 1906, o pai da aviação Alberto Santos Dumont fez sucessivas tentativas de construir uma aeronave. Sua estratégia era atingir a dirigibilidade por meio de um balão acoplado a um pequeno motor. Sete anos antes, em Paris, ele conseguiu o feito de levantar voo com um balão de testes que ficou conhecido como dirigível nº 3. Foram 13 dirigíveis até ele conseguir montar uma aeronave completa.

Santos Dumont abriu caminho para outros famosos balões, como o gigante dirigível de passageiros alemão, Graf Zeppelin, que iniciou suas viagens para o Brasil na década de 1930. Até hoje, o mastro que mantinha a aeronave ancorada ao chão se encontra na “Torre do Zeppelin”, em Recife. Essa foi a primeira base dedicada a um dirigível na América do Sul. O Rio de Janeiro também construiu um enorme hangar para receber a aeronave. Ainda hoje, ele é utilizado pela FAB (Força Aérea Brasileira), no bairro de Santa Cruz, zona oeste da capital fluminense. A edificação foi tombada pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico e Nacional), tamanho interesse turístico e cultural para a cidade.

Outro dirigível famoso foi o Hindemburg, em 1937, que sofreu um acidente com 36 mortos e marcou o fim da era de ouro desse tipo de aeronave para a aviação comercial de passageiros. Só se teve notícia desse tipo de voo em terras brasileiras durante a Segunda Guerra Mundial, quando dirigíveis americanos vieram ao país para caçar submarinos alemães. De lá para cá, esse tipo de tecnologia ficou restrita ao campo dos estudos nacionalmente até o mês de julho, quando o primeiro dirigível fabricado na América Latina teve seu voo inaugural realizado em São Carlos (SP).

O primeiro dirigível da América Latina – Trata-se do dirigível ADB-3-X01, com 48 metros de comprimento, autonomia para cinco horas de voo e capacidade para cinco passageiros e um piloto. A aeronave, que chega a 80 km/h, é composta de duas partes: gôndola – onde ficam passageiros, tripulação, motor, hélice, tanque de gasolina, bateria e eventuais cargas – e balão ou envelope, preso à gôndola por cabos de aço, cheios de gás hélio. Ao nível do mar, tem capacidade total de 1,4 tonelada de transporte.

“O gás hélio faz o balão subir e o motor, movido a querosene de aviação, faz o dirigível ir para a frente. Mas, dependendo das condições atmosféricas do momento, é possível manter o balão apenas flutuando, sem a necessidade de acionar o motor. É por isso que chamamos essa tecnologia de mais leve que o ar”, afirma o diretor técnico da Airship do Brasil, empresa que construiu a aeronave, Daniel Gonçalves. No total, foram cinco anos de projeto e um ano de execução.

Segundo ele, o fato de poder pousar em qualquer área descampada o coloca em vantagem em relação a uma aeronave de pequeno porte convencional. Outra função é a supervisão de linhas elétricas desde a saída das usinas até a chegada aos pontos transmissores de energia. A necessidade de manutenção poderá ser percebida por meio do voo do dirigível. A aeronave também poderá transportar cargas de alto valor agregado (muito volume e pouco peso) para diversas rotas.

“O dirigível complementa a aviação normal porque nem aviões regulares, nem barcos e tampouco caminhões têm fácil acesso a essas regiões. É um meio de transporte adicional. Não é concorrente. Precisamos trabalhar com integração”, observa diretor de relações estratégicas da Airship do Brasil, Marcelo De Felippes. De acordo com ele, a aeronave possui licença para voo na categoria experimental. Por isso, possui algumas restrições, como sobrevoar cidades, realizar voos por instrumento (quando o piloto se baseia somente nos computadores de bordo da própria aeronave ao invés de referências visuais) e sobrevoar à noite.

Cargueiro – O dirigível ADB-3-X01 é apenas um protótipo para um projeto maior: o ADB 3-30, avião cargueiro com capacidade para até 30 toneladas, que deve começar a ser construído a partir do próximo ano. Em termos de dimensão, deve possuir 123 metros de comprimento, tamanho equivalente a um Airbus A-340 ou a um Boeing 747-8. Além de todas as funções do projeto anterior, uma das principais utilizações dessa aeronave deverá ser o transporte de pá eólica: a aeronave poderá sair diretamente do local da produção e transportar o equipamento até o ponto de instalação. Clientes de transporte de madeira e de materiais de construção em áreas isoladas também podem contar com essa possibilidade de deslocamento. “O cargueiro poderá ainda supervisionar roubos de cargas por meio da instalação de câmeras”, explica o diretor.

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Editor chefe da Revista e do site do Maranhão Hoje. Sócio-proprietário da Class Mídia – Marketing e Comunicação