Queda de fertilidade durante o verão em vacas de leite: o efeito da produção de leite

0
746
  • Alexandre Souza
  • (Gerente de Tecnologia Latam – Bovinos de Leite da Cargill Nutron)

 A venda de leite é a principal fonte de renda de uma fazenda leiteira! Portanto, aumentar a produção de leite média do rebanho é uma estratégia interessante e muito utilizada para aumentar a receita do rebanho. Obviamente, esse aumento na produção deve fazer sentido em relação ao aumento dos custos com nutrição, que em geral vão aumentar com maiores níveis de produção de leite. Porém, um ponto importante a ser considerado durante o processo de aumentar a produção do rebanho, é dimensionar corretamente essa maior produção ao sistema de resfriamento dos animais. Isso é importante pois vacas de maior produção, e portanto com maior metabolismo, são mais susceptíveis ao stress térmico.

É muito importante termos em mente que devido ao maior metabolismo, vacas de maior produção tem mais dificuldade em se resfriar. Em um estudo recente da Universidade da Califórnia-EUA, pesquisadores utilizaram um dispositivo que mensurou a temperatura corporal de vacas da raça Holandesa a cada 10 minutos durante o verão em um rebanho comercial na região de Tulare na Califórnia. Os animais estavam alojados em lotes com aspersores na linha do cocho e sala de ordenha, assim como um bom sistema de ventilação na sala de espera da ordenha. Apesar de todas as vacas do estudo estarem no mesmo lote, ou seja, expostas ao mesmo tipo de sistema de resfriamento, observou-se que animais de mais alta produção (acima da média) se mantinham com temperaturas corporais acima de 38.8 oC (ou 102oF) por muito mais tempo ao longo do dia (~45% do dia) se comparado aos animais de produção mais baixa (~27% do dia), como mostrado na figura abaixo. Ainda, animais de produção acima de 45 kg passaram próximo de 60% do dia com temperaturas corporais acima de 38.8 oC. Além disso, o pico de temperatura corporal foi claramente maior em animais de maior produção leiteira (Figura 1 – abaixo).

im 2.png

im 1.png
Curva de temperatura corporal de vacas Holandesas em lactação ao longo do dia para animais de maior ou menor produção em relação à média (Gráfico à esquerda). Pico de temperatura corporal máximo durante o estudo conforme produção da vaca em kg/dia (Gráfico à direita). Adaptado de Batista et al., 2015 (ADSA meeting).

Os dados apresentados na Figura 1 são muito importantes pois muitas vezes modificamos vários aspectos do manejo e nutrição com o objetivo de aumentar a produção de leite, porém nos esquecemos que existe a necessidade de dimensionar a capacidade de resfriamento do rebanho ao aumento da produção de leite.

Problemas de resfriamento podem causar diminuição não só do potencial de produção de leite, mas também de fertilidade que tende a ser pior em animais de maior produção. Por exemplo, um estudo conduzido no Brasil (Pereira etal., 2015) mostrou que vacas em lactação em condições de alto nível de stress térmico (THI > 70) que passaram uma maior parte do dia (>22% do dia) com temperatura corporal acima de 39 oC tiveram taxas de concepção muito baixas de apenas ~12% se comparado com animais que passaram menos tempo ao longo do dia (<22% do dia) com temperatura corporal acima de 39 oC, as quais tiveram taxas de concepção de ~25%. Estima-se que a queda de cada ponto na taxa de prenhez em rebanhos leiteiros tem um impacto econômico de cerca de $30 dólares por vaca/ano (www.dcrconsil.org). Sob este cenário, assumindo uma taxa de serviço média de 60%, uma queda de 25% para 12% na taxa de concepção como observada no estudo acima pode representar um prejuízo anual de cerca de ~ $240 dólares por vaca/ano ou mais de 1000 R$ por vaca/ano! sem contar outros prejuízos relacionados ao stress térmico como menor produção de leite, maior incidência de problemas metabólicos, etc.

Portanto, em geral, animais de maior produção tem maior susceptibilidade a sofrer stress térmico e isso deve ser sempre levado em conta no momento de planejar a estratégia de resfriamento de vacas em lactação. O impacto econômico do stress térmico é grande e pode impactar significativamente a viabilidade financeira do rebanho!

Referências:

  • BATISTA, E.O.S.; COLLAR, C. ; CARVALHO, P. D. ; DEL-RIO, N. S. ; BARUSELLI, P. S. ; SOUZA, A.H. 2015. Effect of daily milk production on core-body temperature of lactating Holstein cows. In: Joint Annual Meeting – ADSA, Orlando, Florida.
  • PEREIRA, M.H.C., A.D.P. RODRIGUES, T. MARTINS, W.V.C. OLIVEIRA, P.S.A. SILVEIRA, M.C. WILTBANK, AND J.L.M. VASCONCELOS. 2013. Timed artificial insemination programs during the summer in lactating dairy cows: Comparison of the 5-d Cosynch protocol with an estrogen/progesterone-based protocol. J. Dairy Sci. 96: 6904-6914.

Sobre a Nutro – A Nutron, marca de nutrição animal da Cargill no Brasil, é especialista e líder em soluções inovadoras de produção animal, por meio de desenvolvimento de núcleos, premixes e especialidades para os segmentos de aves, suínos, peixes, pets, bovinos de leite e de corte, além de suplementos para criação de gado a pasto. Há mais de 20 anos, a marca sempre atuou próxima ao produtor para atender sua demanda com conveniência, qualidade e segurança, contribuindo com a prosperidade nos negócios de cada cliente. A companhia também promove ações socioambientais nas comunidades onde está inserida, pois considera ser seu dever atuar de maneira responsável para o desenvolvimento e crescimento sustentável de toda a cadeia produtiva do agronegócio. www.nutron.com.br.

Sobre a Cargil – Os 160 mil funcionários em 70 países trabalham para atingir o propósito de nutrir o mundo de maneira segura, responsável e sustentável. Todos os dias, conectamos agricultores com mercados, clientes com ingredientes e pessoas e animais com os alimentos que precisam para prosperar. Unimos 154 anos de experiência com novas tecnologias e insights para sermos um parceiro confiável aos clientes dos setores de alimentos, agricultura, financeiro e industrial em mais de 125 países. Lado a lado, estamos construindo um futuro mais forte e sustentável para a agricultura. No Brasil desde 1965, somos uma das maiores indústrias de alimentos do País. Com sede em São Paulo (SP), estamos presentes em 17 Estados brasileiros por meio de unidades industriais e escritórios em 147 municípios e 11 mil funcionários. Para mais informações, visite www.cargill.com e a central de notícias.

Compartilhe
Editor chefe da Revista e do site do Maranhão Hoje. Sócio-proprietário da Class Mídia – Marketing e Comunicação