São Luís vista do alto: Cidade revela evolução e modernização sem perder os traços do passado

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AQUILES EMIR

Cobiçada por franceses, holandeses e portugueses, São Luís é uma cidade que ainda guarda traços dos seus conquistadores, principalmente dos lusitanos que daqui expulsaram os invasores que ousaram construir neste pedaço de Brasil uma porção da França ou dos aventureiros vindos da Holanda.

Com seus mais de 1 milhão de habitantes, a grande maioria vivendo na zona periférica em bairros desordenados, nascidos de invasões, a capital maranhense encontra-se em avançado processo de modernização, mas resistindo em manter preservada a parte que mais retrata como se deu seu nascimento e evolução, o Centro Histórico.

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Para conhecer melhor como se dá essa evolução em constante movimento, Maranhão Hoje faz um passeio aéreo pela cidade, com imagens captadas pelo fotógrafo Marcos Bento, da Marcus Studio, que com sua sensibilidade de artista retratou os contrates existentes entre o antigo e o moderno. São imagens belíssimas em que pode contemplar a beleza dos telhados de seus sobradões, as torres de edificações modernas, a Baía de São Marcos a banhar a cidade e se deixando cingir pelos barcos a vela, o por do sol inigualável, o anoitecer, o amanhecer…

Marcos Bento, diante das imagens que ele próprio captou, usando o moderno recurso de um drone, diz que o mais fantástico deste passeio que fez sem sair do chão foi o sentimento de não conhecer mais a cidade, embora muitas outras vezes a tenha sobrevoado em busca de outros enquadramentos.

Se para ele, essas imagens são reveladoras, mais ainda devem ser para quem no seu dia a dia, andando por suas ruas e avenidas, a pé ou de automóvel, não consegue contemplar a cidade em sua extensão, não pode vê-la do mar para sentir a mesma inspiração do poeta Bandeira Tribuzzi que assim a descreveu em seu poema Imagem:

  • Vista do mar, a cidade,
  • subindo suas ladeiras,
  • parece humilde presépio
  • levantado por mãos puras:
  • nimbada de claridade,
  • ponteia velhos telhados
  • com as torres das igrejas
  • e altas copas de palmeiras. 
  • Seus dois rios, como braços
  • cingem-lhe a doce figura.
  • Sobre a paz de sua imagem
  • flui a música do tempo,
  • cresce o musgo dos telhados
  • e a umidade das paredes
  • escorre pelos sobrados
  • o amargo sal dos invernos. 
  •  
  • Tudo é doce e até parece
  • que vemos só o animado
  • contorno de iluminura
  • e não a realidade:
  • vista do mar, a cidade
  • parece humilde presépio
  • levantado por mãos puras
  • e em sua simplicidade
  • esconde glórias passadas,
  • sonha grandezas futuras.
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Olhando de cima, atento aos detalhes de sua beleza, distinguindo cada detalhe das paisagens que vão surgindo e se multiplicando diante do olhar de quem sabe contemplá-la dá para sentir o que veio à mente de Ferreira Gullar ao escrever a Fotografia Aérea:

  • Eu devo ter ouvido aquela tarde
  • um avião passar sobre a cidade
  • aberta como a palma da mão
  • entre palmeiras e mangues
  • vazando no mar o sangue de seus rios
  • as horas do dia tropical
  • aquela tarde vazando seus esgotos
  • seus mortos
  • seus jardins
  • eu devo ter ouvido aquela tarde
  • em meu quarto?
  • na sala?
  • no terraço ao lado do quintal?
  • o avião passar sobre a cidade
  • geograficamente desdobrada em si mesma
  • e escondida debaixo dos telhados
  • lá embaixo sob as folhas
  • lá embaixo no escuro sonoro do capim
  • dentro do verde quente do capim
  • lá junto à noite da terra
  • entre formigas (minha vida!)
  • nos cabelos do ventre
  • e morno do corpo por dentro
  • na usina da vida em cada corpo
  • em cada habitante
  • dentro de cada coisa clamando
  • em cada casa
  • a cidade sob o calor da tarde
  • quando o avião passou
  • eu devo ter ouvido
  • no meu quarto um barulho cortar
  • outros barulhos
  • no alarido da época
  • rolando por cima do telhado
  • eu devo ter ouvido (sem ouvir)
  • o ronco do motor enquanto lia e ouvia
  • a conversa da família na varanda
  • dentro daquela tarde que era clara
  • e para sempre perdida
  • que era clara e para sempre em meu corpo
  • a clamar (entre zunidos de serras entre gritos na rua entre latidos de cães no balcão da quitanda no açúcar já-noite das laranjas no sol fechado e podre àquela hora dos legumes que ficaram sem vender no sistema de cheiros e negócios do nosso Mercado Velho – o ronco do avião)
  • eu devo ter ouvido seu barulho
  • atolou-se no tijuco da Camboa
  • na febre do Alagado
  • resvalou nas platibandas sujas
  • nas paredes de louça penetrou nos quartos
  • entre redes fedendo
  • a gente entre retratos nos espelhos
  • onde a tarde dançava iluminada
  • Seu barulho era também a tarde (um avião)
  • que passava ali como eu passava à margem
  • do Bacanga em São Luís do Maranhão
  • no norte do Brasil sob as nuvens
  •  eu devo ter ouvido ou mesmo visto o avião
  • como um pássaro branco romper o céu veloz
  • voando sobre as cores da ilha
  • num relance passar no ângulo da janela
  • como um fato qualquer
  • eu devo ter ouvido esse avião
  • que às três e dez de uma tarde há trinta anos
  • fotografou nossa cidade
  • meu rosto agora sobrevoa
  • sem barulho
  • essa fotografia aérea
  • Aqui está num papel a cidade que houve (e não me ouve)
  • com suas águas e seus mangues
  • aqui está (no papel) uma tarde que houve
  • com suas ruas e casas
  • uma tarde com seus espelhos e vozes (voadas na poeira)
  • uma tarde que houve numa cidade
  • aqui está no papel que (se quisermos)
  • podemos rasgar
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Aquiles Emir
Editor chefe da Revista e do site do Maranhão Hoje. Sócio-proprietário da Class Mídia – Marketing e Comunicação