Tudo é magnífico

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No final dos anos sessenta migrei para o Rio de Janeiro. Transferi-me da nossa Faculdade do Maranhão para a Pontifícia Universidade Católica. Na província, após a decretação do Ato I 5, o clima era de silêncio e opressão. Do nosso diretor Fernando Perdigão recebi o conselho: cuidado com a assinatura de manifestos e com reuniões no Rio. Aqui, todos se conhecem, lá, é diferente.  A verdade é que saí do Maranhão e da Faculdade, mas eles nunca saíram de mim. A transferência foi a oportunidade para respirar politicamente e ampliar os horizontes culturais. Já graduado, de regresso ao torrão, inscrevi-me no concurso para professor, na categoria de auxiliar de ensino, o primeiro passo da carreira docente.  Assim, retornei ao aconchego da velha Faculdade, a alma mater de sucessivas gerações de maranhenses.

Entre 25 e 28 de abril de 2018, desencadeamos expressivo movimento cultural em torno das comemorações do centenário da Faculdade de Direito, registrado no livro dos “Anais”, publicado pela OAB Nacional, com a contribuição de juristas de todo o Brasil que se juntaram a nós em múltiplas atividades, incluindo exposições, seminários, concessão de medalhas, sessões legislativas, entrevistas nos meios de comunicação,  demonstrando a mobilização da sociedade do Maranhão para a importância do marco histórico.

Aquele movimento guardou semelhança com o dos “Novos Atenienses” que na última década do século 19 até os anos vinte da centúria seguinte manteve-se vigoroso, fundando instituições como a Academia Maranhense de Letras, o Instituto Histórico e a Faculdade de Direito, na tentativa de resgatar o papel que a Província tivera no cenário das letras e artes nacionais.

Ainda secundarista, participei da campanha de Renato Archer ao governo do Estado, e ajudei Cid Carvalho a estruturar o MDB no interior. Tarefa difícil, ninguém queria ser oposição, a maioria preferia se abrigar em uma das sublegendas da Arena, governista, embora fosse propósito do regime recém instaurado, ao criar o bipartidarismo, efetuar a reforma política que terminou não acontecendo. Guardei boas lembranças e amizades do período, entre elas, as de Renato e Cid.

O tempo do Rio foi fértil para a frequência a livrarias, teatros, cinemas, sobretudo o Cine Payssandu, na Senador Vergueiro, lugar de exibição dos filmes de arte, e onde pontificava a “nouvelle vague” e as polêmicas películas de Jean-Luc Godard. Após as sessões nos reuníamos no bar ao lado do cinema para discutir a exibição e suscitar teses para tirar o Brasil do atoleiro autoritário. Lá se tomava o melhor shop da cidade. Depois era brindar o imprevisível.

O Rio era uma cidade de bares encantadores, onde se desenvolvia uma cultura peculiar, e das casas noturnas, de boates e lugares para curtir as insuperáveis noites cariocas. Por essa época um pianista nascido em São Luís, Luiz Reis, liderava a boemia. Compositor de grandes dotes, parceiro de Haroldo Barbosa e Luís Antônio, é autor de “Tudo é Magnifico”, magistralmente interpretada por Elizeth Cardoso, cujo centenário de nascimento se comemorou em 16 de julho. Apesar de tudo havia um clima de esperança traduzido na canção: “magnifica é aquela tragada puxada depois do café/ Magnifica é a escola de bola de um chamado Pelé/ Formidável sou eu esperando, querendo, sofrendo, sabendo que você não vem…”   

O que isso tudo tem a ver com o Direito e as aulas da PUC? Simples. Pelo contato com a sociologia, com a política, com a literatura, o cinema, consolidei a consistência do projeto ateniense. O Direito, como produto de elaboração cultural, só encontra explicação nas áreas de sua gênese, no leito da sociedade. Ele não é somente coerção, medo, mas também sentimento, amor, prosa e poesia. Tudo isso é magnifico!

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